Dom
Paulo, a fé a serviço do povo brasileiro
Em
50 anos como bispo, ele fez da justiça social sua missão
"Não fazer
política é a pior maneira de fazer política", dizia o sacerdote
Templo máximo da Arquidiocese de São Paulo, a Catedral da Sé
consagrou-se na história recente como local de fé e resistência, onde as
homenagens religiosas muitas vezes trajam uma bata política.
Não seria diferente na celebração dos 50 anos da ordenação episcopal de dom Paulo Evaristo Arns, em missa realizada
no sábado 2. Há quatro décadas, o então arcebispo paulista abriu as portas da
catedral para um ato inter-religioso que denunciou a morte do jornalista de
origem judaica Vladimir Herzog, torturado e assassinado pelos militares durante
a ditadura. Natural, portanto, que temas políticos marcassem a entrega do
Jubileu de Ouro a dom Paulo.
Ouvido atentamente pelos admiradores do arcebispo emérito de 94 anos,
presente à missa apesar da saúde debilitada, um dos discursos que recordou a
luta do sacerdote contra a repressão militar serviu à reflexão sobre a crise política atual no País.
O ativista católico Chico Whitaker, assessor de dom Paulo durante os
anos 1970, foi aclamado pelos fiéis ao comentar o difícil momento brasileiro. “Elegemos um vice-presidente e uma maioria
congressual que representam interesses e objetivos muito diferentes, e às vezes
até mesmo opostos, aos da presidenta eleita”, alertou, após lembrar uma
emblemática frase do homenageado: “Não fazer política é a pior maneira de fazer
política.”
De formação e hábitos franciscanos, dom Paulo é um missionário que
dedicou sua vida à defesa dos pobres e à justiça social. A denúncia da tortura
e da perseguição política durante a ditadura está diretamente relacionada à sua
pregação religiosa.
“Diante da repressão, ele podia ignorá-la ou procurar entendê-la”,
afirma Whitaker. “Ele naturalmente descobriu que não bastava a assistência e a
caridade. Era fundamental investir na ação política.”
Por feitos como a denúncia do
assassinato de Herzog, o arcebispo emérito merece todas as homenagens (Foto:
Estadão Conteúdo)
Em 1966, dom Paulo tornou-se bispo em um momento de renovação na
Igreja Católica. Quatro anos antes, o então papa João XXIII deu início ao
Concílio Vaticano II, que buscava redefinir o papel da religião na sociedade,
com foco em uma nova orientação pastoral voltada para a resolução dos problemas
sociais e econômicos. No Brasil, a cartilha ganhou força após a Segunda
Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em 1968 em
Medellín, na Colômbia.
As reuniões foram fundamentais para o desenvolvimento da Teologia da
Libertação, preocupada prioritariamente com a promoção da justiça social, e
para a consolidação das Comunidades Eclesiais de Base, que buscavam substituir
a supremacia das paróquias na organização da vida religiosa pela valorização de
comunidades menores, com a presença tanto de integrantes da Igreja quanto de
leigos. Atento à renovação, dom Paulo abraçou a nova doutrina e o modelo
descentralizado de comunidades.
O sacerdote tornou-se arcebispo de São Paulo em um momento crucial. Em
1969, um grupo de dominicanos foi preso pelo delegado Sérgio Fleury, do
Departamento de Ordem Política e Social, sob acusação de manter laços com a
Ação Libertadora Nacional, organização de luta armada comandada por Carlos
Marighella.
Uma das lideranças dominicanas, Frei Tito foi brutalmente torturado. À
época, dom Agnelo Rossi, então arcebispo paulista, preferiu não interceder em
favor dos presos. A repercussão dos relatos de Tito publicados na Europa levou
o então papa Paulo VI a substituir Rossi por dom Paulo no comando da
Arquidiocese.
Pouco após assumir o cargo, dom Paulo não se omitiu ao tomar
conhecimento da prisão do padre Giulio Vicini e da assistente social leiga Yara
Spaldini pelo Departamento de Ordem Política e Social em 1971. O sacerdote foi
pessoalmente ao Deops e testemunhou as agressões físicas sofridas por seus
colaboradores.
“Quando ele soube que ambos foram torturados, passou a mostrar a que
veio”, recorda Maria Ângela, secretária pessoal do cardeal por cerca de 40
anos. Dom Paulo divulgou no jornal O São Paulo, semanário da
Arquidiocese, uma nota-denúncia sobre a violência sofrida por Vicini e Yara,
além de determinar que o texto fosse afixado na porta das igrejas e dos
oratórios públicos. “Foi um impacto enorme, alguns padres mais velhos tiveram
medo”, lembra Maria Ângela. “Ele, que ainda era desconhecido na própria igreja,
ganhou muita projeção”.
Chico Whitaker assessorou dom Paulo
na formação das CEBs e Leonardo Boff foi defendido pelo ex-professor de Roma
(Fotos: Miguel Medina/AFP e Mayela Lopez/AFP)
No ano seguinte, por iniciativa de dom Paulo, a Assembleia da
Confederação Nacional dos Bispos do Brasil publicou o Documento de Brodósqui,
um relatório que denunciava as prisões arbitrárias, a tortura e o desaparecimento
de perseguidos políticos após a aprovação do Ato Institucional nº 5.
A partir de 1973, o arcebispo passou a celebrar missas com forte
conteúdo político. O assassinato pelos militares do líder estudantil Alexandre
Vannucchi Leme, da ALN, foi respondido com uma missa-protesto na Catedral da Sé
para contestar a versão oficial apresentada pela ditadura para sua morte,
segundo a qual o estudante teria sido vítima de um atropelamento.
Em 1975, o ato inter-religioso em homenagem a Herzog serviu também para
manifestar repúdio à versão de que o jornalista teria cometido suicídio.
Além das denúncias contra as arbitrariedades da repressão, dom
Paulo notabilizou-se por seu engajamento na consolidação das Comunidades
Eclesiais de Base. Um de seus principais parceiros no desenvolvimento do
projeto, Whitaker afirma que a experiência na periferia foi um “banho de
realidade” e o ensinou muito em termos de representação política. “Havia enorme
horizontalidade nas comunidades. Os coordenadores eram renovados periodicamente
e tornavam-se auxiliares das novas lideranças.”
Segundo Leonardo Boff, expoente da Teologia da Libertação, D. Paulo não
enxergava as comunidades como uma simples frente de pastoral ou um
prolongamento da paróquia em meios pobres. O objetivo era valorizar tanto as
bases sociais como a participação dos leigos. “Dom Paulo animava-os a decidirem
os caminhos da Igreja e aceitava suas sugestões.”
Para reforçar o aspecto pedagógico das comunidades, lembra Boff, o
arcebispo convidou o pedagogo Paulo Freire para acompanhar as atividades na
periferia. “Além de sua dimensão especificamente religiosa, as comunidades de
base eram centros de conscientização, de resistência contra a ditadura e de
construção da cidadania”, afirma. A articulação das comunidades é, por sinal,
um dos pontos de partida para a fundação do Partido dos Trabalhadores em 1980.
Boff tem muito a agradecer a dom Paulo. O cardeal foi professor do
teólogo em Petrópolis e o ajudou a ingressar na Universidade de Munique. Em
1982, Boff foi alvo de um processo doutrinário na Congregação para a Doutrina
da Fé, antiga Inquisição, por conta da publicação de seu livro Igreja:
Carisma e Poder, crítico às instituições católicas tradicionais. O
interrogatório foi conduzido pelo então cardeal Joseph Ratzinger, que mais
tarde se tornaria o papa Bento XVI.
Dom Paulo acompanhou Boff a Roma para defendê-lo no processo. “Ao lado
do cardeal Aloysio Lorscheider, ele argumentou a Ratzinger: ‘Damos nosso
testemunho de pastores de que se trata de uma teologia edificante e boa para a
Igreja’”, lembra o ex-aluno do arcebispo emérito.
Dom Paulo convidou ainda o cardeal a “visitar as comunidades eclesiais
no Brasil e rezar com o povo”. Em seguida, negociou que Boff e seu irmão
apresentassem um documento à congregação para ressaltar a importância da
Teologia da Libertação.
Após o fim da ditadura, dom Paulo seguiu no comando da Arquidiocese
paulista até 1998, quando renunciou por limite de idade e tornou-se arcebispo
emérito. Nos últimos anos, seu estado de saúde piorou, mas não o suficiente
para impedi-lo de comparecer à missa em sua homenagem no sábado 2.
Hoje, quem mais se esforçou em romper com o silêncio da ditadura
não tem condições de verbalizar sua posição sobre a crise política no País.
Arns não tem dado entrevistas ou declarações públicas, mas quem o conhece
garante que sua posição seria contrária ao impeachment de Dilma
Rousseff.
“Ele sempre soube de que lado ficar e foi um defensor inarredável da
democracia”, afirma Boff. “Ele não tem condições de falar, mas estou certo de
que está atento e sofrendo muito com essa situação de ilegalidade. ”
Fiel escudeira de tantos anos, Maria Ângela diz que o sacerdote preserva
seu hábito de ler diariamente os jornais. “Ele se tornou um homem de oração,
mas tenho certeza de que está sensibilizado e rezando muito para o Brasil
voltar aos eixos”, diz. “Em suas conversas com Deus, ele deve estar pedindo
pela iluminação do povo brasileiro. O carinho pelo povo sempre foi sua
principal característica. ”
*Reportagem publicada
originalmente na edição 909 de CartaCapital, com o título "A fé a serviço
do povo brasileiro".www.cartacapital.com.br. 18/07/2016 às 11h:50.
registrado em: Igreja Leonardo Boff Dom Paulo Evaristo Arns Vladimir Herzog



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